O glorioso São José

Nos últimos séculos, a religiosidade popular e o ensinamento dos Papas têm reconhecido cada vez mais a importância de São José na vida da Igreja. Como podemos explicar este fenômeno?

Mais do que simples entusiasmo, a piedade cristã precisa ser alimentada pelas verdades da fé. O que dizem as Sagradas Escrituras, os santos, a teologia e o magistério a respeito de São José?

Aparentemente, não há muito o que se falar sobre São José, mas isso não é verdade. Há muito o que se falar desse homem que foi o Pai adotivo de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Patriarca da Sagrada Família, o Protetor da Igreja e que recebeu tantos outros títulos. Muitos papas já afirmaram que, depois da Virgem Maria, São José é o maior de todos os santos.

Outros grandes da Igreja também já testemunharam seu valor, como, por exemplo, Santa Teresa d´Ávila, em seu famoso Livro da Vida. No sexto capítulo, a santa diz que tem uma grande devoção por São José e que nenhum dos seus pedidos a ele jamais foi negado. Não somente isso, ela afirma que São José é o mestre da vida interior e que se alguém não sabe rezar ou não tem um diretor espiritual, deve a ele recorrer, pois ele ensinará. Ora, essa afirmação vinda da doutora mística possui um peso muito grande.

São José está presente desde o início da história do Cristianismo, é evidente. Porém, a devoção à sua figura vem sendo mais amplamente difundida nos últimos duzentos anos, pois inúmeros documentos, encíclicas, decretos e discursos foram emitidos pelos papas, que são, em grande medida, os maiores divulgadores da devoção ao Pai Adotivo de Jesus.

O bem-aventurado Pio IX, no ano de 1870, proclamou São José como Padroeiro da Igreja Universal, através do Decreto Quemadmodum Deus, em 8 de dezembro. Em seguida instaurou a festa litúrgica, o ofício e os privilégios litúrgicos de São José, através da Carta Apostólica Inclytum Patriarcham, de 7 de julho de 1871. Da leitura desses documentos, percebe-se claramente a motivação do Papa Pio IX em reconhecer São José como padroeiro da Igreja por ele ter sido o protetor de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Historicamente, quando o papado passou a ser atacado é que começou o movimento dos próprios papas de promover a devoção a São José. E é difícil não notar uma correlação providencial entre as duas coisas, pois foi exatamente quando o mundo quis acabar com a figura do pai espiritual que é o Papa, que eles começaram a propor São José como um pai espiritual. O ataque à Igreja e ao Corpo de Cristo e a escolha de José como protetor remete ao ataque contra Jesus e a Sagrada Família, quando também José foi escolhido por Deus como seu protetor.

Em seguida, o Papa Leão XIII escreveu a encíclica Quamquam Pluries, em 15 de agosto de 1889, propondo São José como modelo para as famílias cristãs, modelo de esposo e de pai.

O Papa Bento XV, logo após a Primeira Guerra Mundial, publicou o Motu Proprio Bonum Sane, em 25 de julho de 1920, exalando a devoção a São José e dando-a como solução espiritual para os problemas do pós-guerra.

Já o Papa Pio XI, que viveu a transição entre as duas guerras e o começo da segunda, na encíclica em que trata do comunismo, Divini Redemptoris, de 19 de março de 1937, propõe São José como modelo para os trabalhadores, para os operários.

Até então não havia a festa litúrgica de São José Operário e foi somente Pio XII que, em 1955, instituiu essa festa, que nasceu para impor uma barreira à onda do comunismo. É por isso que São José não pode ser tido – como querem os teólogos da “libertação” – como ícone do proletário, do trabalhador na luta de classes, pois sua festa nasceu justamente para combater a ideologia comunista.

O Papa João XXIII, em 1961, às portas do Concílio Vaticano II, declarou que São José seria o “Celeste Protetor” do concílio. João Paulo II fez a sua famosa Exortação Apostólica Redemptoris Custos, em 15 de agosto de 1989, que é uma obra-prima de espiritualidade sobre São José.

É claro que o Papa Bento XVI, sendo “José” ou “Joseph”, de batismo, tem uma grande devoção a São José e foi ele que preparou a introdução do nome de São José nas três orações eucarísticas no Missal Romano posterior ao Concílio Vaticano II. Lembrando que o Papa João XXIII introduziu o nome de São José no Cânon Romano. Cinquenta anos depois, Bento XVI quis introduzir nas demais orações eucarísticas. Os documentos foram preparados, mas com a sua renúncia, não foi possível colocá-los em prática.

Assim, coube ao Papa Francisco, em maio de 2013, sancionar a introdução do nome de São José no Missal Romano. A devoção de Francisco a São José é tão grande que ele mandou levar de Buenos Aires para Roma uma imagem de São José dormindo. Pode parecer estranha essa imagem, pois é comum vê-lo em pé, com o Menino Jesus no colo ou em atividade, mas ela se explica, pois a Sagrada Escritura ensina que era por meio de sonhos que ele tomava conhecimento dos desígnios do Senhor.

Todos esses documentos significam que a Igreja reconhece a posição de São José. E alguns pontos devem ser mencionados. O primeiro deles é o relacionamento de São José com Maria, pois algumas pessoas, erradamente, tentando proteger a virgindade de Nossa Senhora, não gostam de falar de São José como Esposo da Virgem. Ora, esse é exatamente o título base de todos os outros: “Esposo”. Realmente, Nossa Senhora era esposa de José.

A tendência de diminuir a relação esponsalícia de São José é bastante antiga, vide os evangelhos apócrifos que apresentam São José como sendo um senhor idoso, perto dos cem anos, alguém incapaz de ter relações sexuais. Com isso se pretende “provar” a virgindade de Maria.

No entanto, o Padre José Antonio Bertolin apresenta os argumentos que surgiram após o século XIV, no sentido de que, se São José era mesmo como os apócrifos o apresentam, de nada adiantou o milagre. Se assim fosse realmente, Jesus seria tão somente um filho adulterino, espúrio, um filho sem pai. Não é verdade, pois, que São José estivesse fora da idade de gerar filhos ou que tivesse cem anos de idade.

Os dados a respeito da sociedade na época de Jesus dão conta de que as pessoas se casavam muito cedo. Portanto, dentro do conhecimento histórico que se tem hoje, a Virgem Santíssima tinha entre 12 e 14 anos quando se casou. Tão logo a menina estava preparada biologicamente para ser mãe, já se casava.

Esses dados batem com a Tradição que dá conta de que a Virgem Maria teria engravidado em sua primeira ovulação. Jesus foi realmente o primogênito em tudo. Pode parecer estranho para a mentalidade atual imaginar tal situação, mas era a da época.

Os rapazes, por sua vez, casavam-se com 16, 18 anos de idade. Portanto, José era capaz de ter filhos e também possuía força física capaz de executar a missão que Deus lhe confiou: a de proteger a família que estava iniciando.

Deus dá as graças necessárias para que a missão dada seja executada com primor. Assim, como José recebeu a maior missão de todas: guardar o Redentor e a Sua Mãe, foi cumulado por Deus com as maiores graças espirituais. Ele é também chamado de o “Terror dos Demônios”, pois, como esposo da Virgem Maria e pai adotivo de Nosso senhor Jesus, precisava guardar aquela família das insídias de Satanás.

Dizer que São José é esposo da Virgem Maria não põe em risco a virgindade nem de Nossa Senhora, nem do próprio José. A Igreja olha São José como sendo o “Castíssimo Esposo”, o que se pode observar tanto nos ícones ocidentes quanto nas imagens orientais, em que ele é retratado sempre com um lírio, sinal de pureza virginal.

Alguns alegam que, porque no casamento de José e Maria não havia sexo, não se tratou realmente de um casamento. Ledo engano. O casamento de ambos serve de modelo para os casais, pois todos devem se amar espiritualmente e expressar o seu amor espiritualmente, antes de expressá-lo no ato sexual.

Naquela época, o casamento era “arranjado” entre os pais dos pretendentes. Cabia ao noivo dizer se aceitava ou não a moça que lhe era proposta. José aceitou Maria. E então, assinaram os papéis de noivado e entram no período de tempo de um ano que era reservado ao noivado. Foi nesse tempo que Ela recebeu o anjo, disse o “sim” e engravidou.

Ora, foi nesse momento que José provou seu grande amor por Maria, pois ele poderia ter cancelado o compromisso – a lei o permitia – uma vez que ela ficou grávida e o bebê concebido não era dele. Ele poderia tê-la denunciado para ser apedrejada. Todavia, a Sagrada Escritura afirma que José era um homem justo (cf. Mt 1, 19) e o homem justo quando não sabe, não julga. São José confiava em Nossa Senhora. Ele sabia que ela não mentia, portanto, acreditou e não julgou. E embora tenha ficado perplexo, pois não entendia o que havia acontecido, ainda que acreditasse em Maria, decidiu abandoná-la em segredo, pois ali havia algo maior que a sua capacidade de compreensão. Foi quando, em sonho, recebeu a revelação do anjo.

No Novo Testamento a palavra “sonhar” aparece poucas vezes e mais da metade delas é atribuída a José. O sonhador. Como José do Egito, o filho de Jacó que também foi agraciado com muitos sonhos. O Decreto de Pio IX, Quemadmodum Deus, afirma:

“Da mesma maneira que Deus havia constituído José, gerado do patriarca Jacó, superintendente de

toda a terra do Egito para guardar o trigo para o povo, assim, chegando a plenitude dos tempos,

estando para enviar à terra o seu Filho Unigênito Salvador do mundo, escolheu um outro José, do

qual o primeiro era figura, o fez Senhor e Príncipe de sua casa e propriedade e o elegeu guarda dos

seus tesouros mais preciosos.”

Logo, a devoção a São José é importantíssima nos tempos de crise, pois como José do Egito guardou o povo de Deus em Israel, agora o novo José guarda a Igreja nascente (Jesus e Maria) e também o povo de Deus espalhado pelo mundo inteiro.

Já em relação a Jesus, uma reflexão que pouco se faz é de que, se Jesus era igual ao homem em tudo, teria que desenvolver também a sua masculinidade. Jesus encontrou em José a figura masculina de que precisava. E Ele aprende, pois se torna um homem viril.

Teologicamente falando, o relacionamento de José com o Verbo Encarnado proporcionou que nascessem todos os privilégios de José. Inclusive, José é a única criatura de que se tem notícia que recebeu um título que pertence propriamente a Deus. O Papa Bento XVI, em um de seus discursos, falando sobre São José, ensina:

“Falando à multidão e aos seus discípulos, Jesus declara: ‘Um só é vosso Pai’ (Mt 23, 9). Com

efeito, não há paternidade fora da de Deus Pai, o único Criador ‘do mundo visível e invisível’.

Entretanto foi concedido ao homem, criado à imagem de Deus, participar na única paternidade de

Deus (cf. Ef 3, 15). Ilustra-o de maneira surpreendente São José, que é pai sem ter exercido uma

paternidade carnal. Não é o pai biológico de Jesus, do Qual só Deus é Pai, e todavia exerce uma

paternidade plena e completa.”

Assim, é da relação de José com Maria e com Jesus que nasce a sua relação com a Igreja. Nós podemos confiar em São José, pois ele continua desempenhando a sua missão de cuidar e proteger o corpo de Cristo que é a Igreja, por isso ele é o patrono da Igreja Universal.

Um último ponto é a questão da morte de São José, que se deu antes da vida pública de Jesus. Ele é considerado o padroeiro dos moribundos e da boa morte, porque morreu sendo assistido por Jesus e Maria.

Fonte: https://padrepauloricardo.org/episodios/o-glorioso-sao-jose